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Luiz Ataide

 O Maior Acidente Aéreo do Alto Solimões
(30 anos de uma tragédia)







Vários acontecimentos marcam a vida e a história de uma cidade, os quais de uma maneira ou de outra, contribuem na evolução de seus cidadãos; fatores que nos ajudam a compreender, refletir, analisar e procurar alternativas conciliáveis com nossas falhas, em relação ao bem estar de nossos semelhantes, que muitas vezes dependem de nosso senso de responsabilidade, até para prevenir o dom mais precioso que o Criador nos concede, que é a vida, a qual muitas vezes não sabemos usufruir dignamente desta dádiva que recebemos, somente descobrindo seu valor quando somos acometidos por provações dolorosas durante nossa existência, ou quando testemunhamos tragédias fatais, como o acidente aéreo ocorrido em Tabatinga no dia 12 de junho de 1982, é que sentimos o quanto fomos frágeis perante a natureza, e que nada vale nosso orgulho, arrogância, egoísmo, depois de constatarmos através de nossos semelhantes,com seus  corpos inertes, mutilados e sem vida, é que descemos de nosso pedestal imaginário e refletimos sobre nossa efêmera existência. Mas o que acontecia em Tabatinga naqueles dias?
                       Pela Emenda Constitucional nº 12 de 10 de dezembro de 1981, à Constituição do Estado do Amazonas, por iniciativa do Governador José Lindoso, Tabatinga passara a ser Município. No ano seguinte de 1982, novas perspectivas alvissareiras despontam no horizonte do recém criado município; com a abertura política iniciada pelo presidente e General João Baptista de Oliveira Figueiredo, o Amazonas se preparava para retornar à democracia com as candidaturas de Gilberto Mestrinho pelo PMDB e Josué Filho pelo PDS. Tabatinga se preparava para sua primeira eleição, fundando seu primeiro partido político, convenção partidária e escolha de seus candidatos a Vereadores para a Câmara Municipal. Ainda naquele de ano 1982, no dia 3 de junho, recebíamosa comitiva governamental composta pelo Governador Paulo Pinto Néry, acompanhado do Ministro das Comunicações Haroldo Corrêa de Matos, que se deslocam desde Manaus num avião Búfalo da FAB, para inaugurarem a estação terrena para comunicações por satélite da EMBRATEL, melhorando as comunicações telefônicas e o melhor de tudo, poderíamos assistir pela primeira vez diretamente a transmissão da Copa do Mundo de 1982, realizada na Espanha, com nossa seleção composta por craques de bola como Zico, Careca, Falcão, Sócrates e tantos outros, comandados por Telê Santana. Naquele ano, depois de 6 anos representando o Poder Judiciário,  deixava Tabatinga o Dr. Clovis Albuquerque da Mata, nosso Juiz de Direito.Os libaneses instalavam suas lojas de confecções e calçados na Rua Marechal Mallet. Era lançada a pedra fundamental para construção da Igreja Matriz. O Coronel José Tancredi recebia o Comando do CFSol/1º BEF. O povo enfeitava suas casas e ruas com bandeirolas verdes e amarelas, era Copa do Mundo, e o Brasil era franco favorito ao título. 
                         Naquele clima de Copa do Mundo e festas juninas, era o dia 12 de junho, véspera do dia de Santo Antônio, aquele dia amanheceu nublado, era uma cerração intensa, por volta das 6:30h. da manhã, faltou energia na cidade, em poucos minutos também ouviu-se para o lado do aeroporto a soada de um avião que sobrevoava querendo pousar e não divisava a pista de pouso; como não havia energia na cidade e nem a Infraero dispunha naquele momento de gerador de energia para suprir uma emergênciae com pouco combustível, conforme depois ficou comprovado, o piloto fazia manobras rasantes tentando pousar a aeronave, numa dessas manobras bateu com uma das asasna torre que se localizava nas proximidades das instalações aeroportuárias, girando, caindo,  se espatifando no solo e explodindo. Eram 7:00 h. daquela manhã, quando toda a cidade ouviu aquele enorme estrondo, em poucos minutos todos sabiam que o avião da Companhia Aérea TABA, modelo Hirondelle que vinha de Eirunepé com escala em Tabatinga, tinha caído perto do terminal de passageiros do aeroporto. Todos rumaram ao local, o Exército isolou a área, os bombeiros de Letícia não demoraram, o Hospital de Guarnição de Tabatinga prestava apoio com sua equipe, assim como a Cruz Vermelha. O quadro era tétrico, desolador e triste, era pedaço de avião pra todos os lados, os motores jogados distantes do local do acidente, com paciência e muito trabalho aos poucos eram retirados pedaços de gente, corpos carbonizados, mutilados, ora uma perna ora um braço, corpos de adultos e crianças, uns inteiros, mas com algum membro dilacerado pelo impacto com o chão e pelas ferragens  e assim por diante. Não havia sobreviventes. Todos os 44 passageiros incluindo seus tripulantes com o comandante Manuel Teixeira Estanqueiro, não sobreviveram. A tragédia enlutou Tabatinga pelo fato ocorrido, mas também por perdermos alguns conhecidos nossos. Os restos mortais dos acidentados foram transladados para Manaus e de lá para seus lugares de origens, para um digno enterro.
                          Os trabalhos do inquérito instaurado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos, órgão ligado ao Estado-Maior do Ministério da Aeronáutica, concluiu que não foi decisão do piloto em antecipar o horário de voo e encontrar o aeroporto de Tabatinga fechado, mas sim da própria empresa, por algum funcionário que se enganou ao calcular erradamente a diferença dehorários.
                       Ao registrarmos os 30 anos daquele fatídico acidente aéreo, que deixou tantas famílias enlutadas, verificamos as transformações realizadas em nosso aeroporto, desde que foi assumida sua administração pela INFRAERO em 31 de março de 1980, em que foi seu primeiro Superintendente, o Senhor Orlando Ferreira Cruz,iniciando a melhoria da segurança aérea, as estruturas são evidenciadas no treinamento de pessoal, corpo de bombeiros, novas instalações, instrumentos e equipamentos modernos para auxiliar aeronaves com seus tripulantes, a executarem seus trabalhos aeronáuticos com segurança e precisão, para que acidentes fatais como o ocorrido nunca mais se repita. Só nos resta esperar que algum dia, a INFRAERO se lembre e possa erguer um Memorial no local do acidente, contendo o nome de todos que ali perderam suas preciosas vidas, como uma eternalembrança aos familiares dos desaparecidos, que ainda hoje choram suas perdas.





Crônica sobre os 145 anos de Letícia

Essa região Amazônica, outrora habitada e dominada pela grande nação dos Omáguas, cujas margens do nosso majestoso Amazonas, viram Francisco Orellana e sua frota, singrarem suas caudalosas águas, descobrindo novos horizontes para a civilização, mas também tornando-se palco de disputas pelo seu domínio e posse.

Região que de distante acompanhou as lutas sangrentas e o aparecimento de heróis pela independência do Vice Reinado da Nova Granada e do Vice Reinado do Peru, sob a liderança de Simon Bolívar e de José de San Martin. Nossa região permanecia alheia e solitária até o término dos movimentos latino-americanos pela sua emancipação e cuidar de seus próprios destinos, cortando os laços coloniais para sempre com a monarquia espanhola e portuguesa.

Foto do livro de Mararay
Somente após o Tratado firmado entre o Brasil e Peru em 23 de Outubro de 1851, eis que na imensa planície amazônica, perdida no meio da selva, nasce a pequenina cidade de LETÍCIA em 25 de Abril de 1867, cujo significado é alegria, para ser um simples posto fiscal. Ao seu lado, já se registrava a existência de uma fortaleza brasileira chamada São Francisco Xavier de Tabatinga, fundada já havia alguns anos atrás em 1766. Nascia como uma irmã menor, com suas casas cobertas de palha, precisando de mãos hábeis e constantes para ajudá-las em seus primeiros passos. Mais ao seu lado e mais próximo, anos depois, surge o povoado do Marco-Divisório, composto de moradores civis, a maioria seringueiros que fugiam dos Rios Javary, Itecoaí, Ituí, Curuçá e Quixito e outros afluentes menores, após o declínio do primeiro ciclo da borracha, quando surgiu a borracha produzida nas colônias inglesas da Ásia, cujas sementes foram contrabandeadas do nosso Amazonas.

Foto do livro de Jorge Picón Acuña
LETÍCIA e o povoado do MARCO-DIVISÓRIO, onde atualmente localiza-se a Rua Marechal Rondon, independentes de ações governamentais, deram-se as mãos para sobreviverem mutuamente, superando as dificuldades regionais, onde a presença do Estado tanto da Colômbia como do Brasil eram quase nulas ou mesmo inexistentes. Somente a partir dos anos 50, o governo colombiano começou a olhar com mais carinho para a prima pobre de Letícia, com investimentos governamentais, mas faltava o operário que ajudasse na sua edificação, aí mais uma vez o Marco deu sua contribuição o que já fazia antes, oferecendo os serviços de carretilheiros, carregadores de água para as casas, as célebres lavadeiras com roupas passadas no ferro de carvão e na goma, as cozinheiras, os extratores de madeira roliça e de palha para as casas, os vendedores de lenha para o vapor Narinho e para os navios movidos a roda como a Pasto e Neiva da Companhia NAVENAL, que a faziam a linha Puerto Assis – Letícia, os coletores de lixo como o célebre Abel Bundinha, cearense e antigo seringueiro, contratado pela Alcaldia, que com sua carroça e mula marrom que a chamava de ¨ Princesa ¨, saía pelas saudosas ruas de Letícia, com seu apito na boca gritando com sua voz rouca e já cansada pela idade ¨Aseo, Aseo¨. Atraindo com novos investimentos o aeroporto, porto flutuante para navios transatlânticos, prédios públicos, escolas, aumento do efetivo militar, novos moradores para a Vila do Marco, vindos da ilha do Aramaça, de Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, dar sua contribuição laboral para esta cidade que nos viu crescer chamada Letícia.

Foto do livro de Jorge Picón Acuña
Cidade hospitaleira e irmã em todos os sentidos, crescemos juntos nas mesmas dificuldades, superando com nossa criatividade os entraves que nos foram impostos. Que bom é celebrar teu aniversário neste 25 de Abril; lembrar o dia em ficamos mais estreitamente ligados territorialmente, quando em 1957 foi aberta la carretera del Marco, hoje Avenida Internacional, unindo-a ao povoado do Marco, cortando os potreros de Pancho Landázuri e da Armada Nacional, permitindo a entrada de caminhões para apanhar lenha, tijolos, produtos agrícolas e os trabalhadores do Aerodromo, comandados pelo Dr. Londonho. Que alegria pendurar-se na trazeira da bolqueta do Pastuso, do chéchére do Espadita ou no pomposo e bonito caminhão Dodge de Dom Alfonso Galindo. Essa estrada que tinha como referência o saudoso Balalaica, trazia também a noite ou nos fins de semana os jovens leticianos que vinham dançar nas festas animadas pelo sanfoneiro ZÉ BATISTA e namorar as mais bonitas garotas do MARCO, que com seus perfume tabu, brilhantina glostora nos cabelos e um pielroja na mão, as conquistavam. Assim, pela união matrimonial entre colombianos e brasileiras mais ainda se estreitaram nossos laços de união. Que dizer na educação, quando em 1956 chegaram em Letícia os irmãos de San Juan Bautista de la Salle, fundando o Liceu Orellana com os Hermanos Camilo, Timoteo, Manuel e José, ano em que no MARCO já não possuía escola, a escola construída durante o Governo de Álvaro Maia em 1940, já tinha caído por falta de manutenção da Prefeitura de Benjamin Constant. Letícia com os irmãos La Salle, recebia as crianças do MARCO de braços abertos, sem qualquer restrição, com os quais muitos se alfabetizaram, aprendendo as primeiras letras; difícil era ter que agüentar aos domingos os intermináveis sermões do Monsenhor Marceliano Canhes, em que todos participavam da missa com suas camisas e calças brancas, a gravata preta e os sapatos pretos brilhando.


Foto do livro de Mararay

Aos sábados a noite participar das ¨veladas¨ de boxe na esquina da ¨ Casa Cueva ¨, para ganhar um peso quem nocauteasse o outro. Como esquecer de personagens como o ¨ Matin-tin-tin ¨ do ¨ Maní Tolau ¨, das ¨ vacas locas ¨ ou penetrar na festa dos adultos na casa do ¨Chepe¨ Erazo para ver o Chepe e o Manuel Araújo no saxofone, o Marcelino Dominguez no clarinete, o Alexandre Gonçalves na maraca, o Pacho Vela no acordeón, o Picón fazer malabarismo na bateria e o Manuel ¨Caimán¨, com sua voz grave cantar ¨muchachita linda, muchachita hermosa¨, ou repetir os boleros de Bienvenido Granda.

Foto do livro de Jorge Picón Acuña
Que dizer no esporte, onde aos domingos enfrentavam-se o Deportivo Cruzada e Tabatinga na saudosa cancha popular. Que bom era ver jogar por Tabatinga o irmãos Jaime e Izidio, o Sardote, o Vilmar Lima tantos outros e o inesquecível ZECA PETECA que os leticianos os chamavam de CIGARRILHO, com seus dribles desconcertantes, o maior e melhor futebolista que Tabatinga já teve, cujo nome foi escolhido em consultas popular em 1995, para dar nome ao estádio de futebol de Tabatinga, porém esta homenagem lhe foi usurpada. Jogadores da Cruzada como Libório Guzmán, Marcelino Domingues, Sixto Arbelaes, Luis Valencia e tantos outros, que tantas alegrias davam nas tardes de domingo, ao público que assistia em pé ao redor do campo de futebol.

A ti querida Letícia, na data de teu aniversário, desejamos que sejas sempre bem cuidada, que teus governantes sejam verdadeiros tutores das tuas mais justas aspirações, pois és a estrela que brilha com maior intensidade no sul da Colômbia e nas margens desse grandioso Amazonas, que juntos com nossas cidades do Alto Solimões, nos irmanamos e compartilhamos no dia a dia as tristezas, alegrias e a persistência de querermos sempre o melhor para ti e para o teu povo.

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